Malafaia e o Álcool

Este texto é uma resposta a outro postado no site do pastor Silas Malafaia, o portal Verdade Gospel, a respeito de bebidas alcoólicas. Ele pode ser encontrado neste link: [http://www.verdadegospel.com/evangelicos-podem-ingerir-bebidas-alcoolicas/]. O pastor Silas Malafaia tenta, sem sucesso algum, defender a abstinência dos evangélicos de qualquer tipo de bebida alcoólica. Tentarei neste presente artigo refutá-lo, tarefa que, creio, não será tão árdua.

O artigo começa com uma pergunta, feita por algum internauta, provavelmente.

Pr. Silas, por que os evangélicos, de um modo geral, não ingerem bebidas alcoólicas? Na Bíblia, há alguma proibição ou restrição à ingestão delas?

À pergunta segue-se o começo da resposta do referido pastor, que diz:

Em Levítico 10.9-11, lemos:

E falou o SENHOR a Arão, dizendo: Vinho ou bebida forte tu e teus lhos contigo não bebereis, quando entrardes na tenda da congregação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso entre as vossas gerações, para fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo, e para ensinar aos lhos de Israel todos os estatutos que o SENHOR lhes tem falado pela mão de Moisés.

 

Fomos separados para Deus. Como reis e sacerdotes do Altíssimo, não devemos ingerir bebidas alcoólicas para não dar lugar à nossa carne e ao pecado. Além disso, em Provérbios 20.1, é dito o vinho é escarnecedor, e a bebida forte, alvoroçadora; e todo aquele que por eles é vencido não é sábio. O álcool compromete nossos reflexos e nosso bom senso, e prejudica a nossa saúde.

O pastor Silas Malafaia começa seu argumento tão mal quanto o desenvolve. Aqui, vemos a tentativa de comparar nosso sacerdócio com o sacerdócio de Arão ao estender as proibições deste a aquele outro. Vou mostrar por que tal comparação não só é impossível como seu uso mostra ou total desconhecimento do pastor ou desonestidade intelectual mesmo. Vamos a um texto paralelo com relação ao que era proibido ao sacerdote na dispensação do Antigo Testamento, a saber, Ezequiel 44.15-23:

Mas os sacerdotes levíticos, os filhos de Zadoque, que guardaram a ordenança do meu santuário quando os filhos de Israel se extraviaram de mim, eles se chegarão a mim, para me servirem, e estarão diante de mim, para me oferecerem a gordura e o sangue, diz o Senhor DEUS. Eles entrarão no meu santuário, e se chegarão à minha mesa, para me servirem, e guardarão a minha ordenança; E será que, quando entrarem pelas portas do átrio interior, se vestirão com vestes de linho; e não se porá lã sobre eles, quando servirem nas portas do átrio interior, e dentro. Gorros de linho estarão sobre as suas cabeças, e calções de linho sobre os seus lombos; não se cingirão de modo que lhes venha suor. E, saindo eles ao átrio exterior, ao átrio de fora, ao povo, despirão as suas vestiduras com que ministraram, e as porão nas santas câmaras, e se vestirão de outras vestes, para que não santifiquem o povo estando com as suas vestiduras. E não raparão a sua cabeça, nem deixarão crescer o cabelo; antes, como convém, tosquiarão as suas cabeças. E nenhum sacerdote beberá vinho quando entrar no átrio interior. E eles não se casarão nem com viúva nem com repudiada, mas tomarão virgens da linhagem da casa de Israel, ou viúva que for viúva de sacerdote. E a meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano, e o farão discernir entre o impuro e o puro.

Vemos neste texto algumas probições ao sacerdote quando este entrasse a ministrar no átrio do templo de Jerusalém. São elas:

a) Vestir-se com linho somente, e não com lã;
b) Não usar nada de modo que lhes sobrevenha suor;
c) Não ser careca ou deixar o cabelo grande. Antes, devia estar aparado;
d) Não poderiam beber álcool;
e) Não poderiam ser casados com viúvas.

Que o pastor Malafaia também aplique todas estas obrigações levíticas a nós crentes da Nova Aliança. Sabemos, porém, que ele não fará isso, pois seria loucura aplicar algo que era temporário e sombra do que estava por vir aos crentes da nossa dispensação.

Silas Malafaia parecer ser seletivo na sua análise da Bíblia, tudo para sustentar o preconceito que a Igreja brasileira tem para com as bebidas alcoólicas, algo que nunca foi problemas para os crentes de antes do século XIX. Durante 1900 anos a Igreja usou do álcool sem nenhum problema. Hoje porém, desconsiderando isso, nós, evangélicos, achamos que somos mais sábios do que nossos pais na fé e até mesmo ousamos proibir aquilo que Deus nos deu como benção.

Malafaia ainda usa Provérbios 20:1 para defender sua posição. Pois bem, diz o texto que não é sábio aquele que é vencido pelo vinho e pela bebida forte. Pois bem, se isso fosse condição sine qua non para passarmos a defender a proibição, então vamos proibir o uso da Internet, o assistir televisão, o ingerir remédios, o uso do dinheiro, o entretenimento em geral, o sexo, enfim, tudo que, se usado com moderação, traz bençãos e prazeres lícitos mas que, por algum motivo, aprisiona algumas pessoas. Sabemos que na nossa sociedade existem viciados crônicos em computador, em televisão, em drogas medicinais, avarentos e sedentos por dinheiro e poder, viciados em entretenimento e diversão, sexólatras, enfim, tudo que é tipo de viciado. Isso deve levar a pessoa racional e sensata a fazer uma pergunta: será que o problema é então o objeto de vício? E a resposta é não. Tudo que Deus criou é bom, e é loucura chamarmos de mal aquilo que o Senhor abençoou. Culpar o objeto de vício pelo vício é tirar a responsabilidade e culpa do pecador. Todo viciado é viciado pois não exerceu domínio próprio. Ele é viciado por ser pecador e não por ser uma vítima. Devo ainda lembrar que Provérbios 23:20-21 diz “Não estejas entre os beberrões de vinho, nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão acabarão na pobreza; e a sonolência os faz vestir-se de trapos.” Note que aqui são especificadas as consequências que terá aquele que se deixar dominar pelo vinho e pela bebida forte. Mas não apenas por isso. Agora o sábio acrescenta a comida, estendendo a condenação aos comilões. Pastor Malafaia, por favor, seja honesto e diga que não é sábio aos crentes comer carne também.

Mafalaia continua:

Essa droga psicotrópica, que atua no sistema nervoso central, pode causar dependência e mudança de comportamento. Além da euforia e desinibição, ela provoca falta de coordenação motora, sono e descontrole. Após alguns anos, os efeitos agudos do álcool são sentidos no fígado, no coração, nos vasos sanguíneos e no estômago.

Pastor, o café também causa dependência, e atua como energético, causando euforia. Acho que eu também devo me arrepender de usar de suas capacidades para agirem sobre meu corpo e me deixarem mais ativos e com menos sono quando preciso estudar/trabalhar.

Somos templo do Espírito Santo (1 Coríntios 3.16,17). Devemos, portanto, cuidar dele. Além de exercício físico e repouso adequado, precisamos adotar uma alimentação mais saudável e abster-nos de bebidas alcoólicas, fumo e do uso irresponsável e sem prescrição médica de medicamentos.

O fato de sermos templo do Espírito não é motivo para nos abstermos de todo e qualquer hábito que não seja 100% saudável ou que possa, dependendo do uso, causar algum mal. Se fosse assim deveríamos ser vegetarianos. Aliás, interessante o pastor não estender a proibição a algo que faz muito mais mal do que o suposto mau causado pelo álcool, a saber, o refrigerante. Mais uma vez, ou é ignorância, ou desonestidade intelectual. Deixemos Deus julgar.

Mesmo um copo de cerveja antes de dirigir pode ser fatal. Você sabia que um copo de cerveja demora cerca de seis horas para ser eliminado pelo organismo? Uma dose de uísque, que é bem mais forte do que a cerveja, demora mais tempo ainda. Por isso, a nova lei de trânsito não admite qualquer teor alcoólico ao motorista, uma vez que, ao diminuir seus reflexos, a probabilidade de acidentes aumenta muito.

 

O uso do álcool a longo prazo também pode produzir dependência química e cirrose hepática, bem como causar problemas nos relacionamentos interpessoais, atrapalhando o convívio na família e no trabalho.

Tudo isso refere-se aos abusos no uso do álcool.

Em Romanos 6.16, Paulo exortou: Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?
Não devemos ser escravos de nada nem de ninguém, quanto mais de bebidas alcoólicas, que nada de bom acrescentam à nossa vida!

Sim, não devermos ser viciados nelas. Nem em computador, nem em guloseimas, nem em sexo, nem em diversão, e nem em refrigerante. Ah, e a Coca-cola também não acrescenta nada de bom na minha vida. O álcool dá mais prazer e alegria que a Coca-cola.

Há aqueles que contra-argumentam: “Ué, mas Jesus não bebeu vinho? Por que os cristãos também não podem?” Jesus e os judeus, de um modo geral, bebiam um tipo de vinho que era resultante da fermentação natural do sumo da uva. Além disso, a questão não é poder ou não poder beber; é não dever. Como Paulo disse em 1 Coríntios 6.12: Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.

Aqui Malafaia chega ao cúmulo da confusão mental ao confundir “dever” com “probição”. Evangélicos pentecostais no Brasil NÃO bebem vinho ou cerveja por acharem pecado. Prova disso: diga que tomou um copo de vinho na frente de um deles e verá o que estou dizendo. Tome um copo e será execrado imediatamente. Além disso, o argumento do tipo de vinho de Jesus ser diferente do nosso é falso. Pessoas ficavam bêbadas com ele. Qualquer que fosse a diferença, se ela existe, era indiferente para o questionamento de se pode beber álcool ou não.

1 Coríntios 6:11 fala de imoralidades. Seu argumento não faz sentido. Se Jesus e os judeus, e por que não dizer os apóstolos, a igreja primitiva, a igreja dos primeiros séculos, dos séculos depois dos primeiros, a igreja medieval, a reformada, a igreja dos puritanos, enfim, toda a Cristandade até o século XIX usaram e se alegraram com o vinho, por que nós não podemos?

Para evitar problemas e mau testemunho, há muitas coisas com aparência de mal de que o cristão deve abster-se. Jesus disse a seus discípulos: É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vêm! (Lucas 17.1). Não podemos escandalizar ninguém, tampouco ser pedra de tropeço à fé de ninguém. Foi isso o que Paulo afirmou em Romanos 14.13 — Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça — e em 1 coríntios 8.13 — Pelo que, se o manjar escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize.

Aqui, antes de terminar, mais um argumento sem fundamento racional. O álcool não tem aparência do mal. A embriaguez também não. A embriaguez é má. Por isso devemos evitá-la. O uso do álcool, em si mesmo, não. E sim, vou evitar o consumo se isso for fazer tropeçar um irmão fraco, mas isso não me impede de ensiná-lo para que ele se torne forte, ou de consumir onde ou quando não causará escândalo. Se isso é motivo para condenar a prática do consumo de álcool, por favor, Malafaia, pare de comer carne.

São pelas razões acima expostas que nós, evangélicos, não ingerimos bebidas alcoólicas e condenamos essa prática, que pode levar ao vício do alcoolismo, trazer danos à saúde e aos relacionamentos, acarretando a destruição de vidas.

O correto deveria ser dizer “nós, a maioria dos evangélicos do Brasil”, pois do contrário Malafaia fala em nome de uma fé de 2000 anos que ele parece desconhecer completamente. Além disso, se vício ou danos à saúde e aos relacionamentos fosse motivo de proibição de uma prática, então que o pastor prescreva aos membros de sua congregação que não façam sexo, pois a imoralidade sexual, em nossa era, causa muito mais males que o uso de álcool.

A bebida alcoólica é um bem que Deus nos deu. Isso fica claro pelo testemunho das Escrituras e da Igreja na história. Devemos lembrar que o vinho antigo era alcoólico sim, e nem por isso Jesus e os apóstolos se refrearam em bebê-lo, tampouco recomendaram a abstinência. Os efeitos benéficos do álcool são: causar alegria ao coração e relaxar. Bençãos reconhecidas pela Escritura e que de modo algum são pecaminosas. A embriaguez, sim, é um pecado horrendo e deve ser combatido. Lembrem-se que o abuso não impede o uso. Veja:

Mas, se o lugar de adoração ficar muito longe, e for impossível levar até lá a décima parte das colheitas com que Deus os abençoou, então façam isto: vendam aquela parte das colheitas, levem o dinheiro até o lugar de adoração que o SENHOR tiver escolhido e ali comprem tudo o que quiserem comer: carne de vaca ou de carneiro, vinho, cerveja ou qualquer outra coisa que desejarem. E ali, na presença do SENHOR, nosso Deus, vocês e as suas famílias comam essas coisas e se divirtam à vontade. (Deuteronômio 14:24-26 – NTLH)

É o Senhor que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento: o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que lhe faz brilhar o rosto, e o pão que sustenta o seu vigor. (Salmo 104:14-15 – NVI)

Está na hora de a Igreja brasileira deixar seus preconceitos infantis e crescer, entendendo a natureza verdadeira da santidade e da vida cristã, que não é definida pelos pressupostos basilares que vemos no Brasil: “crente não bebe não fuma”. Isto deveria nos fazer ruborizar de vergonha. É uma falsa santidade. É farisaísmo, e nada mais que isso. Lembrem-se de que, na Ceia de Corinto, que era feita com vinho (pasmem-se), os crentes estavam, em alguma ocasiões, se embriagando. Paulo, ao corrigir, manda que tomem vergonha na cara e exerçam domínio próprio, e não que mude-se o componente da Ceia. Como conclusão, temos que o vinho é bom, a embriagueza, má. O vinho é uma benção, o mau uso dele, uma maldição.

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Sobre Matheus Henrique

Crente em Jesus Cristo!
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